segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Testemunho do XI Encontro Internacional (3º dia - 23/07/2012)


Texto extraído da palestra de Carlo e Maria Carla Volpini (Casal Responsável ERI) 

Um homem descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um Samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o... 

O verbo ver repetido 3 vezes: um sacerdote o viu, um levita o viu, um samaritano o viu..., ver é o único verbo que não exprime movimento físico, mas contém, neste contexto, uma infinidade de movimentos interiores do coração, do espírito , da mente, da alma. 

Juntos procuraremos entender plenamente o que o Senhor quer nos dizer através destes versículos da parábola, concentrando em particular nossa atenção no verbo “ver”. 

O contexto 

A cena situa-se na estrada que de Jerusalém conduz a Jericó. Um homem descia de Jerusalém... Do alto para baixo é um movimento de descida que se realiza continuamente na nossa vida: Neste contexto o alto é representado por Jerusalém e o baixo por Jericó, uma cidade que se encontra 300 metros abaixo do nível do mar, Jerusalém é a cidade santa, em direção à qual subirão todos os povos; Jericó é a cidade do mundo pagão e secular. Jerusalém simbolicamente, a cidade celeste para a qual todos nos dirigimos e quando descemos de Jerusalém quer dizer que nos afastamos de Deus. Afastar-se de Deus só pode levar a situações em que não há felicidade,porque longe de Deus o homem não pode alcançar aquela plenitude de vida para a qual é chamado e para a qual foi criado. 

Ele o viu 

Porque só o samaritano viu o homem meio morto estendido no chão? E o sacerdote? E o levita? Acaso não o viram eles também? Quer dizer então que existem diversos modos de ver e não todos permitem chegar à plenitude e à completude do ver. Se forem procurar no dicionário o verbo ver encontrarão esta explicação: captar imagens pela visão, perceber por meio dos olhos. Ver com os olhos é portanto suficiente para captar uma imagem, uma figura mas não mais do que isso. 

A raiz etimológica nos leva, portanto, a outro ver que não é somente olhar com os olhos mas distinguir , discernir, e depois saber, isto é, entender, no sentido não apenas de ter conhecimento mas de ter discernimento. Para ver de verdade devemos no contentar, portanto em utilizar o sentido da visão ou devemos aprender a abrir os olhos do espírito? Precisaríamos ser uns mestres neste sentido porque todos nós, homens e mulheres unidos pelo sacramento do amor, sabemos que quando amamos profundamente o nosso cônjuge somos capazes de ver muito além de sua imagem exterior, vemos na profundidade de seu coração e de sua alma. E o amor, quando é verdadeiro, faz logo você ver além, porque o ver dado pelo amor não tem tempos. 

Mas... 

Porque o samaritano consegue ver? Porque não se coloca barreiras com os pensamentos racionais que talvez tenham feito desviar o sacerdote e o levita: posso aproximar-me? É-me lícito tocar? É conveniente para mim? O que diz a lei a respeito? O samaritano, assim como os outros dois homens quase tropeça no corpo do homem meio morto: trata-se de uma coisa nova, inesperada, imprevista, mas o samaritano vê isso porque é capaz de acolher Neste imprevisto, aproxima-se e não sabemos se o faz por grande espírito de solidariedade porque o evangelho não o diz, aproxima-se porque aquela coisa nova aconteceu, um homem meio morto no seu caminho, e ele não olha do outro lado, mas se faz presente na realidade do momento. O samaritano vê aquele homem meio morto porque se deixa interrogar pelo seu olhar, que é aquele de um homem necessitado e responde àquele olhar: a necessidade do homem torna-se mais importante do que qualquer outra coisa. Não basta viver ao lado, é preciso viver junto. Faltar ao compromisso com o outro significa faltar ao compromisso com a vida. 

O levita e o sacerdote passaram pelo outro lado e faltaram ao compromisso com a vida porque naquele momento era Deus mesmo que os esperava no corpo ferido daquele homem. O levita e o sacerdote não compreenderam que a vocação dos cristãos é compartilhar generosamente o amor nos diversos caminhos que hoje percorre a humanidade, caminhos novos e às vezes perigosos, mas sempre abertos às pessoas que estão caminhando. 

Nós, homens, podemos nos tornar capazes de ver as realidades de mil formas diferentes e, portanto,, ter uma resposta diferente para cada realidade vista e de estabelecer relações diversas conforme o nosso modo de ver. O senhor conhece só uma: ver e amar. E este samaritano faz aquilo que o sacerdote e o levita, e talvez também nós, não foram capazes de fazer: ele ama. Não ama só com os sentimentos, ama com toda uma série de gestos concretos: vê o homem, tem compaixão, aproxima-se, enfaixa as feridas, derrama óleo, derrama vinho, carrega-o sobre o jumento, leva-o à hospedaria, trata-o, tira dois denários e os dá ao hospedeiro, dá umas instruções e promete que o reembolsará na volta. 

Adquire ainda mais significado o fato de que o Evangelho descreve aquele homem estendido no chão como meio morto, isto é, entre a morte e a vida. Quem o vê assim, entre a morte e a vida, é chamado a escolher se vai ficar do lado da morte e prosseguir sem se importar com ele, ou ficar do lado da vida e cuidar dele. Este homem samaritano ao se aproximar dele parece que quer lhe dizer: eu tomo posição a favor da tua vida. O samaritano é o Cristo que vê o homem, vê cada homem na sua realidade de vida, o ama, nos ama e cuida de nós ao escolher nos dar a vida até a sua morte. A esperança que aquele homem possa se recuperar gera no samaritano uma série de comportamentos concretos que são comportamentos eficazes, nascem com um sentimento que insiste naquela expressão: viu-o e teve compaixão, isto é, amou-o. O homem meio morto poderia representar muitas coisas da nossa realidade atual por exemplo, aquelas pessoas em situações dramáticas de pobreza, de doença, de dificuldade, todas aquelas pessoas que experimentam a maior solidão por causa de amores doentes e feridos, ou a marginalização devido a escolhas pessoais erradas ou que são oprimidas pela dificuldade de viver. É uma carga pesada que não podem carregar sozinhos, é necessário que alguém os veja , pare junto deles para escutar, compartilhar e servir. 

Viu-o. Devemos, portanto aprender a amar com os olhos como fazia Cristo e entender que o percurso não é ver, avaliar, amar, como muitas vezes estamos acostumados a fazer, mas ver e amar como fez Cristo: ...fixou nele o olhar, amou-o... (Marcos 10,21). 

O Senhor vê o homem e o ama enquanto nós o julgamos; o Senhor vê o pecado e perdoa enquanto nós separamos os bons dos maus, os fiéis dos infiéis, quem está dentro de quem está fora, o Senhor vê as nossas necessidades e nos dá gratuitamente o seu amor enquanto nós escolhemos quem é digno do nosso amor, o Senhor vê no nosso coração sem limites enquanto nós nos preocupamos de estabelecer limites e levantar barreiras; o Senhor põe a caridade como fundamento da fé, enquanto nós pensamos, às vezes, poder viver a nossa fé dentro de uma gaiola de normas e de regras que muitas vezes esquecem o homem. 

Concluindo

Viu-o. Não podemos fazer nada mais do que conseguir ver com os olhos de Cristo porque no fim a vida é somente um pouco de tempo que Deus nos doa para aprender a amar e, sobre este dom que nos foi entregue, Deus Pai, no fim dos nossos dias, nos interrogará fixando seu olhar sobre o nosso. Estaremos prontos para responder ao seu olhar? 


Testemunho dado na reunião de grupo 

Nossa reunião de grupo foi composta de oito casais oriundos dos Estados de SP, Paraná, Ceará, da cidade de Brasília. A coordenação da mesma coube a um padre, de nome Tadeu, da cidade de Votuporanga, SP. 

Contou-nos o padre que há poucos anos atrás, quando tinha quarenta anos de idade, foi acometido de uma doença abdominal bastante séria, que o levou a ser hospitalizado. Esteve entre a vida e a morte, por três meses. Nessa condição pode perceber o olhar, Samaritano, dos médicos e atendentes hospitalares, seus cuidadores. 

Tendo saído com vida dessa penosa condição, achou, que deveria de alguma forma retribuir todo esse amor recebido, olhando com o mesmo olhar Samaritano a todos que passassem por ele no hospital, a partir daquele momento. 

Ficou assim, durante mais nove meses, se compadecendo, amando e atuando como padre e atendente hospitalar, diante das necessidades daqueles que surgiram à sua frente. 

Concluindo, disse ele que, a partir desse seu renascimento, se colocou totalmente nas mãos de Deus, como instrumento. Que o Senhor fizesse dele o que bem entendesse para a realização de Seu plano. É nessa condição que ele, padre Tadeu, hoje um cinqüentão, está vivendo no momento. 

Maria Clara e Antonio Luiz
Equipe 6A - Jundiaí

Este texto foi produzido pelo casal Maria Clara e Antônio Luiz, para ser apresentado na nossa última noite de Oração, do dia 20 de Agosto, onde ouvimos vários testemunhos de casais que estiveram presentes no XI Encontro Internacional. Como observaram, eles falaram do terceiro dia do Encontro (23/07) cujo tema foi "Ele o viu".

Segue vídeo resumido com algumas imagens deste dia:

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